Enter your keyword

Laceração perineal e o parto normal

Laceração perineal e o parto normal

A preservação e a promoção do parto vaginal, incluindo a participação ativa da mulher no processo de parturição, têm sido incentivadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (1996) e pelo Ministério da Saúde do Brasil (2001). É a via de parto mais fisiológica, e que apresenta menores riscos para a mãe e para o recém-nascido no período perinatal e no pós-parto. É considerada a melhor assistência, sem ou com o mínimo de intervenção médica durante o parto, fazendo-se o possível para facilitar a fisiologia do parto e o nascimento (OMS,1996).

Segundo o Ministério da Saúde (2016), anualmente, aproximadamente 1,5 milhões de mulheres têm parto vaginal, e a maioria delas sofre algum tipo de trauma perineal, seja por episiotomia ou lacerações espontâneas, estando sujeitas às morbidades relacionadas a este trauma, como a perda de sangue, necessidade de sutura e dor perineal em curto prazo. Há evidências de que o trauma perineal pode acarretar danos temporários ou permanentes ao assoalho pélvico, levando a queixas como perda de gases e fezes, perda de urina e dor durante a relação sexual.

Os traumas perineais podem ser de dois tipos, sendo lacerações espontâneas provocadas pela passagem do bebê no canal vaginal, ou episiotomia, realizada cirurgicamente.

As lacerações perineais são divididas em 4 graus:

  • Primeiro grau: envolve a fúrcula, a pele perineal e a mucosa vaginal
  • Segundo grau: envolve a fáscia e os músculos do corpo perineal
  • Terceiro grau: se estendem até o esfíncter anal
  • Quarto grau: expõem o lúmen do reto e podem incluir lacerações na uretra

Já a episiotomia cirúrgica ocasiona uma lesão na pele perineal, mucosa vaginal e frequentemente secciona os músculos do corpo perineal, equivalendo a uma laceração espontânea de segundo grau.

Em seu guia intitulado “Boas Práticas de Atenção ao Parto e Nascimento,” a OMS (1996) destaca o estímulo para redução do procedimento da episiotomia em torno de 10%. Em 2017, o Ministério da Saúde publicou as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, orientando que a episiotomia não deve ser realizada de maneira rotineira em partos vaginais espontâneos.

Essa intervenção ainda é praticada rotineiramente por profissionais da saúde, com intuito de prevenir lacerações perineais graves e abreviar o período expulsivo do parto, principalmente em situações críticas como o parto instrumental (fórceps, vácuo-extrator). Estudos apontam que os riscos da episiotomia sobrepõem os benefícios e podem aumentar a extensão de lacerações perineais e perda de sangue, causar infecções, prejudicar a função sexual das mulheres, dentre outras complicações.

Sendo assim, o desfecho perineal depende de vários fatores que podem estar relacionadas às condições da mãe, do bebê e ao parto em si. Quando pensamos em preservar o períneo de lacerações e de manter o assoalho pélvico íntegro durante o parto, temos que ter em mente os fatores pré-natais de preparação perineal, os fatores relacionados ao nascimento e a abordagem do profissional que presta assistência ao parto, incluindo os fatores relacionados à prática da episiotomia.

Para isso, no pré-natal é muito importante que essa mulher receba uma abordagem educacional, que além de informar acerca das mudanças físicas que ocorrem na gravidez, também esclareça sobre o que vai acontecer com ela durante o trabalho de parto, bem como o seu pós-parto. O conhecimento é a melhor ferramenta para que a mulher possa se apropriar do seu parto e ser protagonista desse momento.


Referências:

Ministério da Saúde (Br). DATASUS. Nascidos vivos. Brasil. Nascimento por residência da mãe segundo Região. Tipo de parto: vaginal, 2016. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinasc/cnv/nvuf.def

World Health Organization. Care in Normal Birth: a practical guide [Internet]. Genebra: WHO; 1996. Available from: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/63167/1/WHO_FRH_MSM_96.24.pdf

Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Políticas de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Parto, aborto e puerpério: assistências humanizadas à mulher. Brasília; 2001.

Ministério da Saúde (BR). Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal: relatório. Brasília: Ministério da Saúde; 2017. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_nacionais_assistencia_parto_normal.pdf

LEVENO, K.J. et al. Manual de Obstetrícia de Williams. 21. ed. Porto Alegre: Editora: Artmed, 2005.

Riesco MLG, et al. Episiotomia, laceração e integridade perineal em partos normais: análise de fatores associados. Rev Enferm UERJ (2011).

Rocha BD da, Zamberlan C. Prevenção de lacerações perineais e episiotomia: evidências para a prática clínica

Ballesteros-Meseguer C et al. Episiotomy and its relationship to various clinical variables that influence its performance. Rev Latinoam Enferm (2016).

Fotos: hioahelsefag, Myriams-Fotos, StockSnap no Pixabay.


Fisioterapeuta especializada em saúde da mulher pela Unicamp e mestrado pela FCMSCSP (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo). Atua com a prevenção e o tratamento das disfunções que acontecem na região pélvica e nos músculos do assoalho pélvico tanto em mulheres como também em homens e crianças.