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Preparando o períneo para o parto e pós-parto

Preparando o períneo para o parto e pós-parto

Engana-se quem pensa que só mulheres que buscam o parto normal devem se preocupar com a integridade perineal. Independente da via de parto, cesariana ou parto vaginal, a sobrecarga que os músculos do assoalho pélvico sofrem durante a gestação se torna fator de risco para o aparecimento de disfunções que acometem o assoalho pélvico.

Ou seja, durante a gestação, o crescimento da barriga para acomodar o bebê habitualmente promove a diástase abdominal, situação na qual o músculo reto abdominal não desempenha adequadamente sua função de estabilizar a postura, e de conter os órgãos e vísceras pélvicas, fazendo com que a força da gravidade sobrecarregue os músculos do assoalho pélvico. Somado a essa condição, que faz parte das alterações fisiológicas próprias da gestação, ainda temos um aumento da lordose lombar e da anteversão da pelve, alterando toda a biomecânica estática e dinâmica da pelve.

Adicionalmente, a ocorrência de traumas perineais durante o parto vaginal pode levar a graves disfunções no assoalho pélvico, sendo preciso a adoção de práticas aptas para reduzir tais efeitos. Em outros termos, o planejamento de estratégias para a proteção do períneo durante a gestação e o parto pode promover uma melhor função perineal depois do parto e prevenir complicações em longo prazo.

Assim, fica claro entender que os cuidados com o períneo devem começar já no pré-natal, tanto como fator preventivo de fraqueza muscular, como de disfunções futuras do assoalho pélvico. Dentre as disfunções que acometem o assoalho pélvico, podemos destacar incontinência urinária (perda de urina); incontinência anal (escape de gases e fezes); disfunção sexual (dor durante a relação sexual) e dor pélvica ou perineal. A importância desses cuidados fica ainda mais evidente quando a mulher já apresenta alguns desses sintomas durante a gravidez.

O preparo do períneo durante a gestação estimula o controle, a força, a coordenação e a consciência da musculatura perineal. Dentre as técnicas utilizadas, as mais conhecidas são a massagem perineal e o uso do Epi-No.

A massagem perineal tem sido recomendada às gestantes para aumentar a flexibilidade dos músculos do assoalho pélvico e dos tecidos perivaginais, com o intuito de reduzir a ocorrência de lacerações e evitar a episiotomia durante o parto vaginal. Por ser uma técnica relativamente simples, pode ser realizada pela mulher ou pelo seu parceiro durante as últimas semanas da gestação, em casa. Estudos apontam uma redução em até 15% na incidência de episiotomia nas mulheres que realizaram a massagem perineal durante a gestação.

O Epi-No é um dispositivo inflável desenvolvido na Alemanha com o objetivo especifico de alongar a musculatura do assoalho pélvico no final da gestação, proporcionando uma dilatação gentil, representando volumes semelhantes à cabeça do bebê. O seu uso é indicado a partir da 36ª semana gestacional e pode ser utilizado também para simular a passagem da cabeça do bebê no canal vaginal ao ser retirado ou expelido naturalmente, trazendo maior consciência perineal e mais clareza do papel da mulher durante seu trabalho de parto. Os estudos apontam que o uso do Epi-No diminui de forma significativa a segunda fase do trabalho de parto, reduzindo a incidência de episiotomia e de traumas perineais.

Dica: Durante o trabalho de parto, o relaxamento do períneo associado ao puxo involuntário, e não dirigido, durante a contração, somados a uma postura vertical e uma respiração adequada são fatores preditivos de integridade perineal.

Referências

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http://www.fleury.com.br/medicos/educacao-medica/revista-medica/materias/Pages/gestantes-podem-se-preparar-para-o-parto-com-a-ajuda-da-fisioterapia.aspx

Fotos: StockSnap e Kasman no Pixabay.

Fisioterapeuta especializada em saúde da mulher pela Unicamp e mestrado pela FCMSCSP (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo). Atua com a prevenção e o tratamento das disfunções que acontecem na região pélvica e nos músculos do assoalho pélvico tanto em mulheres como também em homens e crianças.